Por Amanda Castelucci Autílio
“Todos os vícios, quando estão na moda, passam por virtudes.” – Molière
Estamos imersos em um mundo onde as redes sociais moldam nossa identidade e o que mostramos ao mundo. A busca incessante por validação e status frequentemente transforma comportamentos egoístas em algo celebrado. Mas será que essas atitudes refletem mesmo as nossas virtudes?
Religiões e filosofias à parte, virtude é mais do que uma característica passageira; é uma qualidade moral, um atributo positivo que nos impulsiona a praticar o bem. Virtudes são hábitos constantes que nos orientam para o caminho do bem, não apenas ações isoladas. Quando falamos em personal branding, é essencial que nossa marca pessoal seja reflexo dessas virtudes autênticas – das qualidades que realmente nos definem – e não de modismos passageiros.
Meu professor, Henrique Alexandre, costumava dizer que todo ser humano é esquizofrênico, narcísico e mentiroso (seria trágico se não fosse cômico). Essa provocação sempre me fez refletir sobre a natureza humana nos dias de hoje. Na busca por aceitação e reconhecimento, muitas vezes nos distanciamos de nossa verdadeira essência e passamos a criar versões de nós mesmos que se adaptam à imagem que queremos projetar. Essa transformação contínua, movida pelo ego, muitas vezes disfarça o que poderíamos chamar de virtude.
Vivemos em uma sociedade onde vícios como vaidade, narcisismo e a busca incessante pela perfeição são, na verdade, celebrados como virtudes, especialmente nas redes sociais. Somos constantemente avaliados e comparados, e, muitas vezes, a linha entre o que realmente somos e o que projetamos se torna cada vez mais tênue.
Segundo um estudo realizado pelo Instituto Cactus, em parceria com a AtlasIntel, que investiga os fatores que afetam o bem-estar psicológico da população brasileira, 40% dos entrevistados afirmaram que sua autoestima é profundamente impactada pelo número de curtidas e comentários em suas postagens. Isso evidencia como o feedback digital, tão prevalente hoje, cria um ciclo de validação constante, que pode ser tanto libertador quanto prejudicial. Quando o retorno é positivo, há um alívio momentâneo, mas quando ele é negativo ou inexistente, a autoestima é abalada.
Essa dependência de validação externa, especialmente entre os mais jovens, impacta a autoconfiança e a capacidade de lidar com críticas e desafios cotidianos, tornando-se uma ameaça ao desenvolvimento da resiliência. A questão é: até que ponto estamos construindo nossa marca pessoal com base em tendências efêmeras e não em algo mais genuíno e verdadeiro?
A construção de uma marca pessoal autêntica não depende de modismos ou validações externas, mas sim da congruência entre o que somos internamente e o que mostramos ao mundo.
Por isso, quero compartilhar um livro muito especial que minha mentora, Rossana Perassolo, me indicou: O Cavaleiro Preso na Armadura. A história segue um cavaleiro obcecado pela imagem que projeta de si mesmo, a ponto de se afastar das pessoas que ama e de sua própria identidade. Em sua jornada pelo Caminho da Verdade, ele começa a reencontrar sua verdadeira face, escondida por trás da armadura que ele mesmo criou. Essa fábula é um retrato atual da dificuldade de nos mostramos como realmente somos, de baixar a guarda e revelar nosso verdadeiro eu, especialmente em um mundo tão pressionado por compromissos e responsabilidades.
E, ao refletir sobre tudo isso, a grande pergunta é: o que estamos realmente projetando? Virtudes genuínas ou apenas vícios disfarçados de tendência? E o mais importante: até que ponto somos capazes de ser verdadeiramente nós mesmos em meio a tanta pressão externa?
Às vezes, a verdadeira força não está no que mostramos ao mundo, mas na coragem de revelar nossa essência, por mais imperfeita que ela seja. O caminho para uma marca pessoal autêntica começa com a aceitação do que somos, com o desejo sincero de nos conectar de maneira genuína com o outro, sem máscaras ou armaduras.